Análise
O outro lado: o que diz a carta que tirou o cinturão de Thiago Teixeira
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Em 1º de abril de 2023, no evento Apex Fight Series, na Alemanha, Thiago Teixeira venceu e conquistou o cinturão de peso médio da WMO (World Muaythai Organization), uma das entidades internacionais de Muay Thai, sediada em Bangkok. Nas imagens da luta, ele aparece com a bandeira do Camboja em volta do pescoço e, em outro momento, segurando-a e acenando com ela para o alto. A comemoração era de uma luta de Muay Thai, com título de uma organização tailandesa, mas a bandeira era do principal rival da Tailândia na disputa sobre a origem do esporte.
Pouco depois veio a resposta. Em comunicado oficial, publicado em tailandês e em inglês e assinado pelo presidente da WMO, Chinawut Sirisamphan, a organização retirou o título e baniu o brasileiro de todas as suas atividades.
O que está escrito
A carta diz que, "após uma análise minuciosa de suas ações antes e depois da luta", a WMO concluiu que o comportamento dele trouxe "descrédito ao esporte do Muay Thai". Segundo o texto, as atitudes foram "politicamente motivadas e fundamentalmente antidesportivas, com o objetivo de degradar o esporte nacional da Tailândia e incitar o ódio".
A organização afirma que ele desrespeitou não só a si mesmo, o esporte, os praticantes e os fãs, mas também o presidente da WMO Alemanha e promotor do evento, Gary Barrett. Barrett, segundo a carta, ofereceu ao brasileiro não só "essa oportunidade maravilhosa" de disputar um título mundial, mas também um seminário de Muay Thai na academia dele.
O comunicado ainda lembra quem é Thiago: alguém que treinou e ensinou Muay Thai por muitos anos, competiu no mais alto nível, mora em Koh Samui, teria participação na academia Super 8 Muay Thai e diz promover eventos num estádio local. Com uma ironia evidente, a carta registra que ele tinha até uma tatuagem com as palavras "Muay Thai" nas costas. Por fim, observa que ele "agora afirma não ser mais um lutador de Muay Thai" e quer representar outra arte marcial. A versão em tailandês dá nome a essa arte: o Kun Khmer.
A visão da organização
Do lado da WMO, o raciocínio é simples. Uma entidade de Muay Thai entregou seu cinturão mundial a um atleta que construiu toda a carreira no Muay Thai e dentro da Tailândia. Esse atleta usou o pódio para exibir a bandeira do país que, naquele mesmo período, contestava a origem tailandesa do esporte e se preparava para os Jogos do Sudeste Asiático chamando a modalidade de Kun Khmer. Para a organização, isso não foi uma homenagem pessoal, foi usar o título dela contra ela própria.
Há ainda um peso pessoal. Gary Barrett, que confiou no brasileiro e abriu as portas do próprio evento e da própria academia, viu o título que ajudou a viabilizar virar uma provocação política. Não por acaso, a carta cita o nome dele.
Duas versões
No Mete o Pé Podcast (23 de julho de 2025), Thiago contou que pediu autorização a Gary antes da luta e ouviu que era "um homem livre" para representar quem quisesse, "até a bandeira do Unicórnio". Também disse que, ao voltar, a WMO o puniu por uma carta cujo conteúdo ele "não sabe muito bem".
As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. Uma coisa é entrar com uma bandeira, outra é transformar a vitória num ato político contra o país que sustentou sua carreira. A carta não pune a escolha de uma nacionalidade. Pune o que a WMO considerou uma afronta deliberada, com motivação política e ofensiva ao esporte nacional da Tailândia. Quem lê o comunicado entende que o banimento não foi um ataque surpresa: foi a consequência anunciada de um gesto que ele fez questão de exibir para o alto.
Fonte: comunicado oficial da World Muaythai Organization (WMO), versões em tailandês e inglês, assinado pelo presidente Chinawut Sirisamphan, referente à luta de 1º de abril de 2023 (Apex Fight Series, Alemanha). Mete o Pé Podcast, 23 de julho de 2025.
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