Análise
O campeão que deu tudo ao Camboja e pediu para devolverem o passaporte
Em entrevista e em postagens no Facebook, o brasileiro Thiago Teixeira expõe o custo de ter adotado o Kun Khmer como causa, e o silêncio de quem deveria tê-lo amparado.
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Thiago Teixeira saiu de uma favela de São Paulo com um par de chinelos, um calção e um passaporte. A primeira luta no Camboja, conta ele, nem foi paga. Mais de uma década depois, carrega um nome khmer (Sam Chan Ruti Kun, com o "Sam" herdado do primeiro-ministro), a cidadania cambojana e o título informal de embaixador do Kun Khmer. Nas ruas de Phnom Penh, diz que as crianças correm atrás dele e que motoristas param as motos para abraçá-lo. Mas, ouvido de perto, o relato desse herói adotivo é também uma história de solidão.
Em entrevista à rádio SBS em português, na Austrália, o lutador relembra o momento que mudou tudo. Ele entrou num ringue na Alemanha com a bandeira cambojana, venceu e foi banido pela WMO por "desrespeitar o Muay Thai". Afirma que recebeu ameaças de morte contra ele e a família, que passou sete meses sem pisar na Tailândia e que perdeu academia, restaurantes e contratos. Pelas contas dele, o prejuízo chegou a quase um milhão de dólares.
Era de se esperar que a escolha fosse retribuída. Não foi isso que ele encontrou na Austrália, para onde viajou para divulgar o Kun Khmer. "Não tenho [salário]", admitiu. "Eu estou meio que sobrevivendo da minha economia que eu tive na minha academia na Tailândia." Quem o acolheu foi um dono de bar de Melbourne, Peter Yu, e o próprio Thiago escolhe as palavras com cuidado ao explicar por quê: "O pessoal me deixou um pouquinho de lado. Ele me abraçou, me colocou na casa dele. (...) Ele não é nem um pouco político."
O anfitrião foi menos diplomático. "Ele foi ignorado pelos líderes da minha comunidade, que não deram nenhum apoio a ele, nenhum, para ser honesto", disse Peter Yu. Ele acrescentou que "os integrantes da comunidade têm opiniões diferentes" e que mal acreditou quando conseguiu reunir cerca de cem pessoas para recebê-lo: "não os líderes de comunidade, e sim o povo que apoia".
O desabafo no Facebook
O que na entrevista aparece nas entrelinhas já tinha sido dito sem rodeios no Facebook. Em 23 de junho de 2024, Thiago publicou dois desabafos no perfil dele.
No primeiro, escrito em khmer e lido aqui pela tradução automática da própria rede, anunciou uma transmissão ao vivo com "um relatório do Camboja" para contar "como quebraram as promessas que me fizeram, perder o meu clube e outros problemas de vida na Tailândia". E se dirigiu a alguém que não nomeou: "Para quem me disse que não posso promover artes marciais Khmer em terra Khmer por 5 anos e agora veio me bloquear. A mesma pessoa que disse se acontecer alguma coisa comigo eu vou ter costas pra ajudar, o que eu fiz de errado que você quer me destruir?"
No segundo, em inglês, foi ainda mais longe: "Not having the support of Cambodia's leadership always made me sad. Now they promote, after everything I did, a man from Myanmar representing their culture before me. I don't need to be from Cambodia, so they can take their nationality back." Em português: "Não ter o apoio da liderança do Camboja sempre me deixou triste. Agora, depois de tudo que eu fiz, eles promovem um homem de Mianmar representando a cultura deles antes de mim. Eu não preciso ser do Camboja, eles podem pegar a nacionalidade de volta." O post terminava com quatro corações partidos.
A palavra que pesa é "sempre". Não se trata de um mal-entendido pontual, mas da percepção de uma ausência que acompanhou toda a trajetória dele: o povo o abraçava, a cúpula não.
Entre a devoção e a sobrevivência
O retrato que se forma é o de um atleta preso entre dois países. A Tailândia o expulsou simbolicamente, e o Camboja, ao menos o oficial, o celebrou sem sustentá-lo. A cidadania que deveria selar o pertencimento virou, num momento de mágoa, um documento que ele se disse disposto a devolver.
O perfil dele no Facebook dá pistas de como a conta tem sido fechada. Numa análise feita em novembro de 2026, 37 dos 50 reels mais recentes exibiam a marca da casa de apostas FAFA 678, em artes com palpites de futebol ou estampada na camiseta que ele veste. Os vídeos sem a marca, com mensagens de carinho ao Camboja, são os que alcançam centenas de milhares e até um milhão de visualizações. Os patrocinados raramente passam de alguns milhares. Nem a entrevista nem os posts tratam desse patrocínio, e não há declaração dele ligando uma coisa à outra. Ainda assim, para quem diz viver das economias e ter sido barrado de promover o esporte que adotou, o espaço que ocupa hoje nas redes de um apostador é difícil de ignorar.
A história de Thiago Teixeira costuma ser contada como a de um estrangeiro que virou ídolo. Pelas próprias palavras dele, é também a de alguém que descobriu que o amor das arquibancadas não paga as contas, e que nem todos os que aplaudem de longe estendem a mão de perto.
As citações da entrevista vêm da transcrição do áudio publicado pela SBS em português. O primeiro post de 23 de junho de 2024 foi escrito em khmer e é citado pela tradução automática do Facebook. As lideranças citadas pelo lutador não foram ouvidas.
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