Análise
"Nem posso falar muito do Camboja": o silêncio conveniente de Thiago Teixeira
No dia 23 de julho de 2025, Thiago Teixeira participou do Mete o Pé Podcast.

A conversa era descontraída, entre risadas e fotos de Angkor Wat no celular, até chegar ao Camboja real, o país que lhe deu cidadania e um nome khmer. Ali o tom mudou.
O próprio brasileiro descreve o Camboja como "a Tailândia de 30 anos atrás", "um país muito carente". Na roda de conversa aparecem falas sobre "muita pobreza", um povo "traumatizado" e até relatos de pais que vendem os filhos. Logo depois o assunto passa para a política: o rei "não manda em nada", seria "só figuração", e o poder de verdade estaria com o primeiro-ministro, citado como "um dos caras mais ricos do mundo". Ouve-se até que aquela "vai ser a última geração de rei".
Então vem o recuo: "Mas então, né? Nem posso falar muito do Camboja, né? É perigoso, né? Eu vou voltar lá ainda." Logo em seguida, outra voz na mesa tenta amenizar: "Nós não estamos falando mal de nada, a gente está aqui só comentando as paradas."
O que o recuo revela
A frase diz mais do que parece. Quem diz que "não pode falar muito" está admitindo que sabe o que tem para falar. Thiago entende os problemas do país, como a pobreza, a concentração de poder e o papel decorativo da monarquia. Mesmo assim, prefere calar, e o motivo é declarado por ele mesmo: ele ainda quer voltar.
É um silêncio compreensível para quem já perdeu muito. Rompido com a Tailândia, banido pela WMO e afastado da vida que construiu em Koh Samui, o Camboja é hoje um dos poucos lugares onde ele ainda tem algum espaço. Contrariar quem manda lá pode custar o pouco que restou. Só que o silêncio não é neutro. Fica a dúvida se é cautela ou conveniência.
E o cambojano, como fica?
A pergunta mais incômoda não é sobre o governo, é sobre o povo. O que sente um cambojano ao ver o lutador estrangeiro que o país recebeu de braços abertos, com passaporte, nome e status de embaixador do Kun Khmer, apresentar o Camboja a uma plateia brasileira como um lugar de miséria, trauma e venda de filhos, para depois dizer que é melhor não falar muito porque é perigoso?
Todo país tem seus problemas, e o Camboja não esconde os dele. Mas quem aceitou representar uma nação tem, no mínimo, o dever de apresentá-la com algum cuidado: a cultura, a história, o povo que torceu por ele. Na mesma conversa, a parte positiva ficou nos templos e na tatuagem nas costas. Sobre as pessoas, sobrou pena. Sobre o poder, sobrou silêncio.
Essa ambiguidade combina com uma trajetória feita de lealdades que mudam de lado. Em junho de 2024, Thiago disse no Facebook que a liderança cambojana nunca o apoiou e que o país "pode pegar a nacionalidade de volta". Um ano depois, no podcast, ele mede cada palavra para garantir a volta. O orgulho deu lugar à necessidade.
Fonte: Mete o Pé Podcast, episódio com Thiago Teixeira, 23 de julho de 2025 (trecho de 2min08). Postagens no Facebook de 23 de junho de 2024.
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